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Quilombo Pita Canudos

O Quilombo Pita Canudos localiza-se no município de Cáceres, no estado de Mato Grosso, inserido no bioma Pantanal. Trata-se de uma comunidade tradicional remanescente de quilombo, formada por descendentes de africanos escravizados que fugiram da região de Poconé, ainda no século XVIII.

A comunidade foi certificada pela Fundação Cultural Palmares no ano de 2013 e ocupa uma área aproximada de 1.546 hectares. Seus moradores preservam práticas culturais afro-brasileiras, incluindo o uso de plantas medicinais, manifestações religiosas, festividades tradicionais e formas próprias de organização social, elementos fundamentais para a manutenção de sua identidade cultural (WIKIPÉDIA, 2024; KN.ORG.BR, 2023).

No que se refere aos aspectos socioeconômicos, a comunidade desenvolve atividades como agricultura familiar, pesca artesanal e iniciativas culturais voltadas à valorização de seus saberes tradicionais. Entretanto, enfrenta desafios históricos relacionados a conflitos fundiários, grilagem de terras, dificuldades no processo de titulação definitiva e limitações de infraestrutura básica, o que reforça a luta contínua pelo reconhecimento pleno de seus direitos territoriais (MÍDIA NEWS, 2021).

Morroquianos


As comunidades morroquianas, também conhecidas como quilombos da Morraria, localizam-se na região serrana do estado de Mato Grosso, em áreas próximas à Estação Ecológica da Serra das Araras, caracterizadas por serras, vales e vegetação típica do bioma Cerrado. Essas comunidades tradicionais são formadas por descendentes de africanos escravizados e de povos indígenas que se estabeleceram na região durante o período colonial, em processos históricos de fuga e resistência (KN.ORG.BR, ano).

O modo de vida dessas comunidades está fortemente vinculado às atividades rurais, destacando-se a agricultura familiar, o plantio de mandioca, a pesca e o manejo sustentável da terra. Os morroquianos são reconhecidos como agricultores tradicionais da Morraria, mantendo práticas produtivas adaptadas às condições ambientais locais (SEMA-MT, ano).

Além dos aspectos produtivos, o território da Morraria representa uma importante herança cultural e ambiental. Trilhas tradicionais e áreas de uso comunitário evidenciam conhecimentos ancestrais relacionados ao manejo sustentável do Cerrado e à preservação de sua vegetação característica, reforçando a relação entre identidade cultural e território (DGM BRASIL, ano).

Entretanto, essas comunidades enfrentam desafios relacionados a conflitos fundiários, pressões ambientais e dificuldades de acesso a serviços básicos, o que intensifica a luta pela titulação de seus territórios e pela valorização de sua identidade cultural e ambiental (SEMA-MT, ano).

Pantaneiros

A comunidade tradicional pantaneira do Porto do Limão localiza-se às margens do rio Jauru, no município de Cáceres, estado de Mato Grosso, constituindo-se como um relevante patrimônio cultural vivo do Pantanal Norte. Composta por cerca de 150 moradores, a comunidade é formada por pescadores artesanais, ribeirinhos e descendentes de povos indígenas que, ao longo de gerações, desenvolveram um modo de vida baseado na interação sustentável com os ecossistemas pantaneiros (SEMA-MT, ano).

As atividades produtivas tradicionais incluem a pesca artesanal, a agricultura de várzea — com destaque para o cultivo de mandioca e frutas regionais — e práticas de subsistência adaptadas ao regime hidrológico do Pantanal. O manejo sustentável dos recursos naturais, a proteção das matas ciliares e o conhecimento sobre os ciclos de cheias e vazantes do rio constituem elementos centrais para a manutenção do modo de vida da comunidade (SEMA-MT, ano).

Entretanto, a comunidade do Porto do Limão enfrenta impactos socioambientais significativos decorrentes da implantação de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) na bacia do rio Jauru. Visita realizada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos em 2018 identificou alterações na vazão do rio, provocando enchentes irregulares e comprometendo diretamente a atividade pesqueira, principal fonte de subsistência local (CNDH, 2018).

Esses impactos são corroborados por relatos de moradores da comunidade, como o pescador Constantino Pires, que aponta uma redução drástica na quantidade de peixes capturados semanalmente — de aproximadamente 70 a 80 kg para menos de 10 kg — em razão do assoreamento do rio e da presença de barragens, evidenciando a vulnerabilidade socioeconômica da população ribeirinha diante das transformações ambientais recentes (IHU UNISINOS, ano).

Diante desse contexto, a comunidade mantém uma luta contínua pela defesa de seus direitos territoriais, pela preservação dos recursos naturais e pela garantia das condições necessárias à reprodução de seu modo de vida tradicional pantaneiro.

Ribeirinhos

Os ribeirinhos e pescadores artesanais do estado de Mato Grosso constituem comunidades tradicionais profundamente vinculadas aos rios, que desempenham papel central na construção de sua cultura, identidade social e meios de subsistência. Localizadas às margens de cursos d’água como o rio Paraguai e seus afluentes, especialmente na região de Cáceres, essas comunidades dependem diretamente dos ecossistemas fluviais para a reprodução de seus modos de vida tradicionais (SEMA-MT, ano).

Estudos realizados pelo Observatório Pantanal indicam que comunidades ribeirinhas situadas entre Barra do Cabaçal e a região da Rocinha apresentam condições socioeconômicas marcadas por moradias rudimentares, baixos níveis de escolaridade e forte dependência da pesca artesanal como principal base econômica. No entanto, a escassez de peixes tem se intensificado, comprometendo a segurança alimentar e a sustentabilidade dessas populações (OBSERVATÓRIO PANTANAL/FIOCRUZ, ano).

Além da pesca artesanal, essas comunidades desenvolvem práticas relacionadas ao manejo tradicional das inundações sazonais, à conservação das matas ciliares e ao uso sustentável dos recursos naturais. Tais conhecimentos, transmitidos entre gerações, são fundamentais para a adaptação às dinâmicas ambientais do Pantanal e para a preservação da biodiversidade local (SEMA-MT, ano).

Paralelamente, iniciativas institucionais têm buscado mitigar parte das vulnerabilidades enfrentadas pelos ribeirinhos. Projetos desenvolvidos pela Marinha do Brasil, como o programa “Navio”, atuam no atendimento às comunidades pantaneiras dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, oferecendo assistência social, serviços básicos e apoio à regularização da atividade pesqueira. Apesar dessas ações, persistem ameaças decorrentes de obras de infraestrutura, degradação ambiental e alterações no fluxo natural dos rios, o que intensifica a luta dessas comunidades pela proteção de seus territórios e pela valorização de seu modo de vida tradicional (AGÊNCIA MARINHA, ano).

Bezendeiros

No contexto regional, a presença das benzedeiras é registrada em comunidades quilombolas, a exemplo do Quilombo Mata Cavalo, localizado nas proximidades do município de Cáceres, no estado de Mato Grosso. Essas mulheres exercem papel fundamental na organização social e cultural das comunidades, atuando como referências no cuidado à saúde física, emocional e espiritual de seus membros. Seu trabalho baseia-se na transmissão oral de saberes tradicionais, envolvendo práticas de benzedura, orações, aconselhamentos e o uso de plantas medicinais cultivadas ou coletadas nos territórios comunitários.

As benzedeiras são frequentemente procuradas para o tratamento de enfermidades consideradas tanto físicas quanto espirituais, como dores, inflamações, mal-estar, quebranto, mau-olhado e desequilíbrios emocionais. As práticas de cura incluem a preparação de chás, banhos, garrafadas e defumações, além de rituais simbólicos que combinam elementos do catolicismo popular, das religiões de matriz afro-brasileira e de conhecimentos indígenas. Essas ações reforçam laços de solidariedade e pertencimento comunitário, contribuindo para a manutenção da identidade cultural local.

Iniciativas desenvolvidas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) têm buscado catalogar e registrar os conhecimentos dessas mulheres, com o objetivo de evitar a perda desse patrimônio cultural imaterial e promover o reconhecimento social de suas práticas. Ademais, oficinas promovidas pelo Programa REM-MT, realizadas no ano de 2024 no município de Cáceres, incluíram povos de terreiro em ações voltadas à valorização das práticas etnobotânicas e espirituais tradicionais, incentivando o diálogo entre saberes tradicionais e políticas públicas de valorização cultural.

Essas iniciativas contribuem para o fortalecimento da diversidade cultural pantaneira e para a resistência dos saberes das benzedeiras frente aos processos de modernização, medicalização excessiva e homogeneização cultural, assegurando a continuidade de práticas tradicionais fundamentais para a vida comunitária (UFMT, 2024; REM-MT, 2024).

Reiteiros do Araguaia

Os Reiteiros do Araguaia, também denominados Retireiros, constituem comunidades tradicionais do estado de Mato Grosso, concentradas principalmente na região nordeste, nos municípios de Luciara e Santa Terezinha. Esses grupos desenvolvem práticas de pecuária extensiva em áreas de várzea do Rio Araguaia, estruturadas a partir do conhecimento dos ciclos naturais de cheias e vazantes, o que possibilita a adaptação do manejo do gado às condições ambientais locais (REPORTER BRASIL, s.d.).

A organização social e produtiva dessas comunidades baseia-se na construção de retiros temporários em áreas conhecidas como varjões, utilizadas como pastagens naturais durante o período de estiagem. No período das cheias, ocorre a migração do rebanho e das famílias para áreas mais elevadas, garantindo a segurança dos animais e a continuidade das atividades produtivas. Esse sistema coletivo de criação caracteriza-se pelo uso sustentável das pastagens nativas, contribuindo para a preservação da biodiversidade e evitando práticas de degradação ambiental.

Os reiteiros detêm ainda amplo conhecimento etnobotânico, utilizando espécies vegetais nativas para fins medicinais, alimentares e construtivos. Estudos identificam o uso de aproximadamente 29 espécies de plantas, cujos saberes são transmitidos oralmente entre gerações, fortalecendo os vínculos culturais e a identidade coletiva das cerca de quarenta famílias que compõem essas comunidades (UFMT, s.d.).

Embora sua territorialidade esteja historicamente associada à bacia do Rio Araguaia, observa-se a extensão e circulação de práticas culturais semelhantes em outras regiões de Mato Grosso, incluindo áreas do Pantanal de Cáceres. Essa conexão ocorre em função da continuidade dos ecossistemas fluviais e das semelhanças ambientais, favorecendo estratégias produtivas adaptadas às áreas alagáveis e às cheias sazonais (MAPA SOCIAL DE MATO GROSSO, s.d.).

Apesar de sua relevância sociocultural e ambiental, os Reiteiros do Araguaia enfrentam desafios significativos, como grilagem de terras, cercamentos ilegais para a expansão de monoculturas de soja e arroz, restrições de acesso à água e episódios de violência associados a conflitos fundiários. Diante desse cenário, as comunidades articulam-se por meio de associações locais e com apoio do Ministério Público Federal, reivindicando a criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável, com vistas à garantia territorial e à proteção de seus modos de vida tradicionais (BRASIL DE FATO, 2021).

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